Até breve!
O Conexão 7 informa que o blog deixará de ser atualizado a partir desta segunda-feira.
O projeto terá de ser pausado por tempo indeterminado para reestruturação.
Iniciado em agosto, o blog acumulou 7,5 mil acessos nesses quatro meses de funcionamento e a participação ativa de leitores tanto com o envio de textos quanto nos comentários.
Por hoje, fica a esperança de que esse interrompimento seja apenas um breve hiato e que o blog volte, com força total, antes que você, leitor, se dê conta.
Obrigado!
Desbravo-me
Olho para mim e tento entender o que me faz ser eu. Sim, o que me difere do outro, que marcas e limites construi para que eu fosse o conjunto que me tornei. Tento primeiro olhar no espelho. Aprendi rápido que aquela era eu, o reflexo idêntico da minha imagem. E já na primeira tentativa, encontro o erro. Não gosto da imagem que vejo. Será que é a mesma que todo mundo vê? Lembrei da minha mãe dizendo que eu tinha que valorizar aquilo que eu tinha de melhor. Bosta. Acho que ela esqueceu de me contar o que era. E anda difícil descobrir isso sozinha.
Olhei de novo. Talvez seja necessário mudar. Acho que essa pode ser uma boa opção, mudar fora para ver se eu alcanço dentro. Comecei. Roupas, sapatos, maquiagens e um colar. Vale qualquer desde que me deixe diferente, desde que me mude o suficiente. Errei outra vez. No dia seguinte não usei nada do que tinha comprado. Deu preguiça. Preguiça de tentar ser ou estar num eu diferente deste aqui.
O conflito só cresce. Não me enxergo quando me olho e não sei onde mais eu posso buscar minha imagem. Quero olhar para dentro, mas tenho medo do que posso encontrar por lá. Parece que é tão escuro nesse espaço, às vezes só enxergo um buraco. Alguns momentos ele é convidativo, acolhedor. Em outros, é poço vazio. Profundo e sem vida, quase oco.
Começo a ganhar agora. Ganho porque percebo que ser poço vazio e não abrigar ninguém na beirada é ser eu. Percebo também que a vontade de guardar a humanidade em mim, de abraçar ao outro e o convidar para abrigar o meu poço interno, também sou eu. E assim vejo que sou tantas, tantas que nem consigo contar. Que nem conheço. Que nem desbravei ainda.
Resolvi, então, ir ao encontro de mim. Não no espelho porque não desejo mais me encontrar por fora. Há tanto ainda por descobrir dentro. Sentei, tranqüila. Ser eu não tem sido fácil. Mas é um prazer me conhecer!
Contumaz gritaria
O mundo grita nos seus ouvidos. Você grita ao nascer, e ainda porque um desconhecido estapeou-lhe o traseiro, e tem de aturar gritaria pelo resto da sua existência como castigo.
Quando pirralho, ouve berros dos mais velhos o tempo todo. O pai grita para você não sentar na escada rolante, a mãe grita para que não encoste nas coisas que vê, e eles gritam um com o outro, graças a você, que sentou onde não devia e derrubou aquela garrafa cara de vinho do supermercado.
Na escola, é a vez do professor. Gritar com os moleques, que sempre demoram demais para voltar do recreio. Gritar com as meninas, quando elas se metem a brigar por namorado. Gritar com a sala inteira quando ninguém fez lição, ninguém estudou e só aquele japonês sentado à frente passou na prova. O Brasil se tornou independente de Portugal com um grito, você não sabia?
O refúgio da gritaria está na própria gritaria. Você, adolescente, enfia fones no ouvido, escuta todo tipo de berro e chama de música. Já percebeu como não se fazem mais canções com vozes amenas e tons calmos? Alguém inventou que música boa tem de ter emoção, e emoção necessita de gritaria. E você gosta.
Gosta tanto que arruma namorada só para ouvi-la gritar. Todo rapaz tem de aguentar crise de imaturidade de garotas “autossuficientes” para fazer sexo logo, e é bem verdade que muita mulher também tem de aturar moleque que quer proibir roupa curta, proibir balada, proibir amizade.
Você cresce um pouco, vai à faculdade, troca de círculo de amizades mais de uma vez, e nada muda. As pessoas gritam de cansaço de tanto estudar para o vestibular, gritam por terem conseguido entrar não na universidade que queriam, mas na terceira ou quarta opção na lista, gritam pelas ruas de caras pintadas para conseguir dinheiro.
O primeiro estágio, o primeiro emprego, esses nunca vêm sem a companhia de uma porção de sonoras broncas para todo o departamento ouvir. Ninguém estuda para aprender a envelopar cartas, reunir clipes ou organizar as pastas, mas é só você errar, assim sem querer, para todo mundo lhe encher de correções estridentes.
Mas você gosta. Se não gostasse, não faria tanta questão de ir às baladas todo fim de semana, lugares tão barulhentos, tão cheios de ruídos, que você precisa gritar com quem quer que seja se quiser falar algo. Até com aquela moça de cabelos cacheados, futura mãe de seus dois filhos.
E os filhos vêm sempre antes do que se espera, para o terror dos agora avôs e avós, que lhe repreendem aos berros, dizendo que ainda não era hora. Não era hora de ter os bebês, de comprar carro, alugar casa, começar a pagar aluguel. Mas você teve de fazer tudo, mesmo com tanta gritaria, ou seria para sempre o filho da mamãe.
O tempo lhe dá cargos melhores no trabalho, seja talentoso, esforçado, ou não. Eles carregam o direito de distribuir alguns gritos entre subordinados, quase como um modo de se redimir por tanto ter ouvido até chegar ali. Mas você, tolinho, esqueceu-se que todo mundo tem chefe ou cliente, e quanto maior a responsabilidade, maior tem de ser o tímpano.
Conforme as crianças crescem, cresce também a necessidade de educá-las com o mesmo rigor que se foi educado. Isso envolve um monte de princípios e lições morais, mas nada mais é do que grito atrás de grito, toda vez que o discurso tranquilo não funcionar, e algum deles sentar na escada rolante ou derrubar aquela garrafa cara de vinho do supermercado.
A maturidade faz com que sua tolerância ao som estridente de alguém lhe enchendo a paciência aumente, mas novas fases carregam consigo novos problemas.
A moça de cabelos cacheados que você teve de gritar para conseguir conversar, então, fica gorda, com seios murchos e enxaquecas quase permanentes. E ainda assim ela grita contigo o tempo todo, porque você esqueceu de levar as crianças para a escola, de quitar a dívida do cartão de crédito, de agradar-lhe com flores e recados românticos, como fazia quando o tempo ainda não havia levado dela toda a beleza.
Esqueceu de tanta coisa, mesmo com tanta gente gritando tudo o que tem de fazer o tempo todo, que se divorciou e passou a ver as crianças, hoje adolescentes, amanhã adultos independentes, cada vez com menor frequência.
Como contexto de todo o trajeto traçado na sua vida, as coisas gritam ao seu redor, às vezes sem emitir som nenhum.
É a propaganda que berra artigos que você não precisa comprar, os jornais que berram escândalos e tragédias tão cotidianos quanto os próprios gritos, esse texto, que repete tantas vezes as mesmas palavras, gritar e berrar, só para te causar desconforto espontâneo e sem propósito.
E a única diversão de um velho homem é usar do poder financeiro que acumulou para estar em shows barulhentos de bandas velhas, mergulhadas em nostalgia, e em jogos de futebol, nos quais o momento mais divertido é berrar, extravasar, porque alguém chutou uma bola na rede, como sempre se faz.
O grito faz parte da vida. Talvez por ser a manifestação mais genuína da emoção humana, talvez por ser apenas um gesto tão singular do homem quanto andar para frente e para trás. A única capaz de calá-lo é a morte, o silêncio eterno daquele que faria qualquer sacrifício para voltar a ouvir os berros de quem ele deixou emudecido de dor.
Chega aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira, 2, um longa que promete ser repassado as distribuidoras e virar rotina nos próximos natais em todas as sessões da tarde até daqui a uns dez anos.
“Operação Presente” é um filme de comédia e animação em 3D que soluciona uma das grandes dúvidas que provavelmente nos cercaram durante nossas infâncias. Como é que o Papai Noel consegue entregar todos os presentes, para todas as crianças, em uma única noite? Mesmo considerando as diferenças de fusos horários essa seria uma missão impossível. Ao menos que houvesse uma super operação de alta tecnologia para ajudar.
O filme encanta pela leveza e linguagem simples que atinge tanto adultos quanto crianças tentando recuperar um pouco da magia natalina que está se perdendo a cada ano. Com um roteiro inteligente e divertido, “Operação Presente” faz um contraponto entre a tradição natalina e a tecnologia atual.
Mesmo competindo com outras animações como: Happy Feet 2 – O Pinguim e O Gato de Botas (que estreia semana que vem). Operação Presente é uma ótima sugestão para esse fim de ano.
Extra, Extra, Extra
O ultimo político honesto está morto. Aparentemente de causas naturais. Alguns radicais alegam que foi de bondade que ele morreu, que seu coração estava cansado de tentar consertar as burradas de seus amigos de plenário.
A comoção era geral entre todos aqueles que acreditavam na sua existência. Alguns ainda se perguntavam se aquele teria sido o último honesto, mas estava difícil acreditar que em algum lugar, mais algum recusaria propina ou não faria promessas das quais não pudesse cumprir.
Em Brasília a presidenta se colocou na frente das câmeras, estava arrumada, de batom vermelho, combinando com seu conjunto de saia e paletó cor de caqui. Falava das premissas de seu colega defunto, da sua generosidade com o próximo e de todos que tirando do próprio bolso antes mesmo de ser político, ajudou.
O que muitos eleitores não sabiam, era que tamanha bondade se tratava de culpa. O morto que vivia o auge de seus quarenta e cinco anos, quase calvo, de estatura mediana e grande barriga, na verdade havia abandonado três filhos no interior da Paraíba quando resolveu ir a São Paulo, terra da garoa em busca de oportunidade, quando tinha 28 anos. Sem dinheiro e sem ter contato com a família, veio a descobrir através de uma irmã que seus filhos e esposa haviam morrido de fome. Falhou em sua missão.
Sentia culpa por ter gasto o primeiro montante de dinheiro que conseguiu juntar em prostitutas e bebidas. Culpa, porque no segundo montante que juntou, comprou um carro, um Uno branco, usado, mais em boas condições. Nenhum telefonema para a família que deixou para trás. Casou-se de novo, mas nunca contou a atual esposa o que havia feito, era seu terrível segredo.
Para vizinhos e amigos, passava a imagem de um homem idôneo, prestativo, acima de qualquer suspeita. E mesmo tentando se redimir de seus erros, mesmo sendo humano e imperfeito, em manchete extraordinária emissoras de TV divulgaram informações do passado sujo do último político honesto do país. E o que diziam era que, havia morrido só mais um político, porque afinal no Brasil não existe salvação.
“E”
HERMÍNIO BERNARDO
Antes te via passar,
Somente de longe
Ficava a olhar e pensar.
Do nada estávamos próximos
E o meu observar
Cada vez mais constante
A se apaixonar…
O “E” de seu peito me encantava
Seu olhar profundo
Que sem falar nada,
Me dizia absolutamente tudo
Seu belo sorriso
Que a todos dedicava,
Assim como o “E” de seu peito,
Muito me encanta…
Sonhos multiplicados
Trocaram o tom da música. Com a mudança, veio também a batida mais acelerada no peito, a gota d’água nos olhos e no corpo. Era chegada a hora. E cada som emitido ampliava o furacão, que já morava nela há alguns meses. Sonhara tantas vezes com aqueles passos, ensaiara o olhar, as mãos, o sorriso… Mas agora só havia tremor em tudo. Não sabia se sorria, se ouvia, se sentia. Era tanto o que tinha chegado.
Os pequenos portões brancos se abriram. Com um gesto do homem de preto, eles também apresentaram o som, o rangido que abria suas grades para dar início ao grande momento. De guarda-chuva branco e flores amarelas nas mãos, ganhou de presente um belo sorriso do sol. A beleza do astro iluminava tudo que ali havia. Era dia de reinar.
Enquanto ela andava, feliz, rumo ao seu sim, eu pensava na grandiosidade da realização do seu sonho. Tão bela e inteira! Quantos passos foram necessários para te levar até ali, minha amiga? Quantas marcas, lágrimas, abraços e laços? Quanta coisa precisou ser amarrada e depois solta. Tantos passos em círculo… Tantos passos!
De tão cheio, o coração jogava as emoções para fora: punha mãos e lábios a tremer. É o prazer do sonho que se realiza. Prazer de sair do sonho e por os pés no real.
Sentada, de longe, eu a espiava com sorrisos. Sem permissão, eu também me deixava pousar nela. Era sonho meu também se realizando. Sonho de amor, de amiga amada. Só posso contar – contar, porque jamais poderei explicar – que o abraço dela nunca me foi tão precioso. Porque não era um abraço. Era meu pedido, o meu obrigado àquela coragem de não arrancar nenhuma página do livro. E de jamais deixar a tinta acabar!







