Licença para irritar
Todo mundo gosta de conflito. Todo mundo precisa de conflito. Sem conflito, gente vira vegetal. Quem fica tranquilo, sob sol forte ou chuva, é árvore. Planta. Gente gosta de ter problema, daqueles que aparecem, insistem e ficam. De reclamar, queixar-se, emburrar. Se não há nada grave em curso, cria-se. É só se apegar a algum detalhe negativo, presente na vida de qualquer um que não fica plantado na calçada, e fazer um estardalhaço.
E pior: gente mau-humorada não gosta de usufruir da má sorte solitariamente. O sujeito gosta de arremessar na testa de todos os que estiverem mais próximos aquilo de pior que lhe acomete. Próximos mesmo, por mais que o pior não seja tão ruim assim. Não é o inimigo, o desconhecido e o mero colega que sofrem. Nenhum deles tem de aturar o mau humor do fulano que acordou e virou para o lado errado da cama. É o amigo, o namorado, o marido, e todos os adjetivos também no gênero feminino.
Mas, apesar de mulher também ter de aguentar o pessimismo do homo sapiens sapiens em sua primeira versão, pelo menos segundo a tal da Bíblia, é justamente ela que faz com que essa obsessão pelo problema se agrave e destrua a saúde de todo o entorno. Homem, quando tem problema, fica irritado, preocupado, transtornado, mas algumas dezenas de minutos vazios à frente da televisão, tanto faz o canal, resolvem.
Há uma peculiaridade do sexo feminino, comprovada por mais de um cientista maluco, chamada tensão pré-menstural. Ao macho que ainda não entendeu, funciona assim: em algum lugar ao lado dos rins há óvulos sendo gerados. Eles aparecem, viajam túneis chamados trompas e explodem. Viram sangue, encharcam calcinhas, acabam com a paciência da menina. E ela, para compensar toda essa chatice, importuna todo mundo ao redor. Com licença para tal!
Mulher se apoia em TPM para cometer todo tipo de imaturidade, sacanagem e injustiça. Entope-se de chocolate, sob o pretexto de que a barrinha está cheia de serotonina, e ela por sua vez relaxa os nervos. Os mesmos nervos que voltam a se contorcer e causar uma dor de cabeça tremenda quando coisas terríveis acontecem. A caneta parar de funcionar, por exemplo. Ou bater vento no rosto e desarrumar o cabelo. Ou ainda, em condições extremas, algum moleque aparecer e cumprimentar com beijo no lado errado da cara.
Não é para ficar maluca de raiva? Quando os óvulos estão para estourar, ainda dá aquela dor desgraçada no ventre. Cólica! TPM e cólica. Dá para colocar bolsa de água quente, tomar uns remédios, ficar com os joelhos encostados nos peitos, como feto ainda preso no útero. Mil soluções, nenhuma eficácia. Será?
Homem, quando tenta argumentar que toda a dor da rotina feminina não é lá tão enorme assim, mete-se a ressaltar as dores da própria vida. E vida de homem é de fato mais calma. É fazer a barba todo dia, toda semana, dependendo da genética do rapaz. Disfarçar algumas ereções fora de hora. Cortar o cabelo uma vez a cada três meses. Não dá nem para comparar. A desvantagem do sexo masculino é muito mais fácil de ser encontrada.
O maior estorvo da rotina do macho é aturar a inconstância da fêmea, é claro, protegida cientificamente pela regra inquebrável da tensão pré-menstrual, às vezes pós-menstrual, e também ativa durante esse período. Toda a cólica que o marido não sofre, toda a irritação que o namorado não tem, tudo é compensado com juros abusivos pelo exagero feminino. Homem não tem direito a ter mau humor. Mas mulher tem direito constitucional de irritar quem mais dela gosta. E ele não pode nem reclamar.
Quer ver? A mulher que leu esse texto até aqui reage de modos previsíveis. Ou está irritadíssima por ter sido contrariada, principalmente por terem duvidado do poder da TPM! Ou está desdenhosa, dizendo que esse coitado não sabe do que fala, que não tem noção do que é ser mulher. Ou está soberba, arrogante, tentando ser irônica, sugerindo que o macho aqui vá gostar de outros homens e pare de reclamar.
Ainda há esperança. A última mulher não entendeu bem o propósito desse monte de palavras, porque não se importa muito com o que escrevi. Já amadureceu e aprendeu a não despejar problema na mente dos outros, principalmente aqueles que ela mais considera, para se sentir melhor. Todo mundo gosta de conflito. Todo mundo precisa de conflito. Mas ela já aprendeu a lidar com eles. Que tal?
Apreciação desfavorável
Lucas viveu a adolescência sendo criticado. Criticado por suas roupas de roqueiro, pelo cabelo comprido sempre preso com um rabo de cavalo. Era criticado por ser muito quieto e pouco sociável, por amar loucamente e platonicamente uma colega de classe, criticado até por passar horas na frente do computador jogando seu jogo preferido de Warcraft.
Sua rotina era sempre a mesma, acordar, tomar banho, vestir a primeira calça larga que estivesse a disposição em seu guarda roupa, colocar uma camiseta qualquer de sua banda favorita, ir para o colégio e voltar para jogar.
Até os 18 anos foi assim. Quando entrou na Universidade foi criticado por seus pais por escolher ciência da computação e não direito. Era criticado por decidir se dedicar aos estudos ao invés de trabalhar e criticado por não namorar.
Seus pais, parentes e amigos sempre o criticaram. Não conseguiam aceitar tão pouco entender a singularidade da personalidade de Lucas, ele tinha seu próprio ritmo, sua própria maneira de ver a vida.
Com o tempo abandonou as roupas largas, o cabelo comprido, trocou os jogos por barzinho no fim de semana com os amigos e o amor antes platônico por um namoro real com uma estudante de administração. Era criticado pelos ex-amigos roqueiros, pelos jogadores nos fóruns de jogos online e por sua namorada, nunca satisfeita com a suposta desatenção de sua parte.
Os anos passaram, Lucas se formou no que gostava. Arranjou um bom emprego em uma multi nacional, tinha sua própria equipe de monitoramento de sistemas, mas era criticado por seus subordinados. Criticado, por não ter pulso firme, por sempre ajudar os colegas, por prolongar os prazos para nunca prejudicar ninguém.
Casou-se com Mariana, a estudante de administração que namorou os quatro anos de faculdade. Foi criticado pelos sogros, por não ter dado uma festa de noivado luxuosa a altura de sua filha e foi criticado por seus irmãos pela pequinês da cerimônia de seu casamento.
Com o tempo sua linda esposa de cabelos compridos, cor de mel e ondulados engravidou e deu a luz à uma menina. Foi criticado por estar trabalhando quando sua mulher estava em trabalho de parto. Criticado por dormir após horas de trabalho enquanto o bebê chorava de madrugada e criticado por não trabalhar o suficiente para poder comprar uma casa maior.
Estava enfastiado, sentia-se parte de tudo e de coisa alguma. Nada do que fizera parecia bom o bastante para ninguém, nem mesmo para aqueles que ele amava. Subiu o lance de escadas, abriu a janela e atirou-se da janela do quinto andar, foi criticado por todos, por não ter coragem de viver.
Ô desgraça!
JOÃO BATISTA
Ali estava ele sentado na frente de sua casa com um forte sol que assava todo o seu rosto, mas não ligava, ficara ali sentado esperando que algo de diferente acontecesse naquela maldita cidade. Durante o dia, em estado catatônico, ele observava o movimento, normalmente trazido por um cachorro sem dono, preto e com uma sarna da peste que vivia a vasculhar o lixo que ficava na calçada das casas. Não demonstrava isso, mas Joberson desejava que aquele cachorro fosse atropelado por uma Scania de vinte e um pneus, explodido por uma granada, ou simplesmente morresse. Dessa forma a calçada ficaria limpa, e o lixo, dentro dos sacos.
Além do maldito cachorro, passava por aquela rua seu Migué Nezin, um velho manco, que todo fim de tarde passava pra ir comprar dois pães na única padaria da cidade. Ao passar seu Migué Nezin olhava para Joberson e acenava com uma das mãos dizendo:
- Boa tarde, corno!
Apesar de Joberson ser solteiro, virgem, aos 35 e sozinho na vida.
Na volta da padaria, seu Migué Nezin repetia o mesmo aceno e dizia:
- Ô desgraça!
Joberson não ligava, afinal era um velho que poderia também sinistramente ser atropelado pela mesma Scania de vinte e um pneus, explodido por uma granada ou simplesmente vir a óbito!
À noitinha, logo após o seu Migué Nezin, passava pelo canto da rua um homem de sobretudo preto e um chapéu de palha, Joberson olhava atentamente para o rosto do indivíduo na intenção de identificar quem era aquele homem que mesmo com um sol de 47 graus saía sempre vestido daquela forma. Uma vez sem querer o homem de sobretudo olhou de relance para Joberson que notou que o tal homem usava um tapa olho pink flúor no olho esquerdo, mas o homem rapidamente cobriu parte de seu rosto com a gola do sobretudo.
Com o cair da lua, era a vez de uma loira vestida com quase nenhuma roupa passar por ali. Ela sempre olhava para Joberson e falava palavras que pareciam ter saído de um filme de pornochanchada dos anos 80, nosso herói fingia que não ouvia nada até que ela fosse embora.
Todo dia era a mesma coisa em cuspe do diabo, uma vida monótona para Joberson, mas que estava prestes a mudar bruscamente no dia seguinte.
Ao fim de mais uma noite, logo de manhã, como era de rotina, Joberson despertou de seu sono e foi até o banheiro para fazer higiene bucal em seus lindos dentes amarelos, mas naquela bela manhã uma coisa incomodava Joberson, o creme dental havia acabado!
- DROGA! – gritou nosso amigo, preocupado com o fato de que teria que ir ao único mercadinho da cidade pra comprar creme dental.
Preparou-se então para sua saída, pegou sua carteira e alguns trocados, seu chapéu preto e se dirigiu até o portão da sua casa. Chegando ao portão se deparou com o cachorro preto que rasgava afoitamente o seu lixo com as sobras do jantar da noite passada, sem pensar duas vezes Joberson pegou uma pedra próxima e lançou-a na direção do cachorro preto só para espantá-lo, mas o inesperado aconteceu! A pedra acertou em cheio a cabeça do pobre cachorro preto que num grunhido triste e infeliz veio ao chão escorregando sua língua rosa ao lado de sua pobre boca suja e faminta. Inevitavelmente uma grande e brilhante poça de sangue se formou em volta do cachorro preto.
- Ô desgraça!
Gritou entre os dentes nosso amigo, agora assassino de cachorro preto, apesar de querer muito que aquele cachorro preto tivesse um fim, não queria que isso acontecesse pelas mãos dele.
Então suando frio, ele virou-se de costas e tentou seguir seu destino sempre olhando para trás para ver se ninguém estava vendo ou viu a cena lamentável que havia ocorrido…
Para conhecer melhor o autor, visite o blog dele.
Escorreu
… E aí? E aí que eu levantei, joguei o cobertor, arranquei as pantufas e abri a janela. O dia estava nublado, escuro com várias nuvens e eu me decepcionei um pouco, é verdade, mas resisti. Continuei firme, mesmo quando o vento começou investir – sem força – contra o meu rosto e meus braços reagiram contagiando o corpo inteiro. Ainda assim permaneci.
A chuva começou a cair fina nas árvores que balançavam de um lado a outro, fazendo com que as gotas despencassem pesadas ao chão. Meu rosto, meus ombros e a camiseta velha que eu vestia também molhavam. A pele gelada forçava uma saída imediata. As mãos enrijecidas e a boca que começava a tremer reforçavam o pedido, mas permaneci.
Permaneci imóvel até a primavera chegar com sua brisa e seu colorido inconfundíveis. Meus joelhos, costas e cabeça compartilhavam de uma dor generalizada e caótica que não deixei ninguém sarar, porque era minha. Deliciosamente só minha. Então passou o tempo e chegou o dia em que exausta vi o inverno acabar – porque um dia ele acaba.. E ai? E ai que de molhada que fui, e de umedecida que foi, no doído que escorreu o que não era para ser, de pequeno que era e de falta de valor.
Só de bonito nasceu, só de bonito ficou.
Personalidade em branco
Ele tremia de medo quando abria uma rede social. Tempos atrás era o Orkut quem lhe apavorava. Depois, o Twitter, e aí chegou o Facebook, todos com a mesma pergunta: quem é você? Descreva-se. Conte ao mundo quem você é, como age, do que gosta, aonde vai, ande. E Paulo lembrava que não se encaixava em padrão nenhum.
Das perguntas mais básicas, ficava em dúvida a respeito da cor preferida. Já gostou muito de verde, passou a adorar o preto, até descobrir que cores são legais mesmo quando combinadas. E ele não tinha combinação preferida. Música? Não gostava de pagode, nem de axé, menos ainda de funk. Mas do que gostava, enfim? Rock? Ouvia músicas vez sim, vez não, mas não sabia dizer se Metallica era metal, se Slipknot era heavy metal. Não sabia de vertente nenhuma. Só ouvia.
Desde crianças, as pessoas vão se encaixando em círculos sociais. Entre os próprios roqueiros, há os punks, os góticos, os malucos, mas Paulo não era nada disso. Mal se vestia de preto. Amante de MPB, samba ou sertanejo, ele não era. Nunca havia sido chifrado por mulher nenhuma, pelo menos até onde sabia. E que mulher?
Nunca fora um sedutor muito hábil. Mas também não era totalmente incapaz. Pegou algumas meninas, mas não muitas. Também não teve nenhum romance dolorido, nem havia se apaixonado. Só relacionamentos que duravam determinado tempo e se esvaíam, como fogo em lareira com pouca lenha. E aí volta-se à questão inicial: quem é Paulo? Ele não se decidia nem entre loiras, morenas ou ruivas. Japonesas são exóticas, mulatas são gostosas, mas qual? Sem preferências. Pura indecisão.
Não era gordo suficiente para entrar no grupo dos gulosos, viciados em RPG online e McDonald’s. Nem era atlético para participar da roda dos esportistas. Se a garotada se reunia desde a infância para jogar bola em qualquer canto, transformando-se com o tempo em tios que se reúnem em um dia toda semana para bater a tal da pelada, Paulo nunca havia participado. E nem participaria, pois não tinha amigos em número ideal.
Quem é você, Paulo? De onde vem? De uma grande capital, São Paulo, cheia de pessoas com características marcantes. Quando andava pela famosa Avenida Paulista, via por todos os lados indivíduos claramente integrados a algum grupo. Olha aquele fulano tipo família, caminhando de mãos dadas com a mulher e olhos no filho encapetado correndo e voltando à frente. Olha o outro homossexual, mais um, cheio de trejeitos e gritinhos para chamar atenção. Olha aquele bando de carecas correndo atrás das bichas, enchendo-lhes de porrada por alguma razão obscura.
Ele não era nada disso. Não era politicamente engajado, tampouco. Dizia não gostar de petistas, estar cansado dos tucanos, não ter empatia nenhuma por peemedebistas, mas o que diferencia um do outro, mesmo? No máximo, sabia dizer das cores. Por algum tempo passou a proclamar frases pseudo-socialistas, mas logo notou que também não tinha jeito para integrar o círculo de filhos da mamãe que não trabalha, não estuda, não paga conta, mas invade reitoria com discurso pretensiosamente cheio de ideologia.
Paulo era um sujeito tão incerto, que não era ninguém, e era todo mundo ao mesmo tempo. De longe, rapaz comum, parecido com todos os outros. De perto, não, não. Ele não era nada. Paulo tentava abraçar a sociedade, no nicho que lhe acolhesse melhor, mas todos os lugares lhe davam um sorriso sem jeito, viravam-lhe os calcanhares e logo sumiam.
Submerso em tanta tristeza, algo que lhe acometia de tempos em tempos, quando notava que não tinha espaço nenhum no planeta, ele pensava em suicídio. Era simples, fácil. Atirar-se à frente de um ônibus qualquer, pular de uma ponte, cortar a jugular. Mas suicida é um bicho cheio de detalhes. Entra em depressão, esconde-se, deixa bilhete. E Paulo não se sentia confortável para fazer quaisquer maluquices. A vida seguiu. Tinha de seguir.
Viver cansa!
A gente reclama do trabalho, que trabalhar cansa. Mas se fica em casa de bobeira, reclama do marasmo, da inquietação, do não ter nada para fazer.
A gente reclama do namoro, namorar cansa. Mas quando está solteiro, reclama de não poder sair de casalzinho com os amigos, reclama da falta de companhia no fim de semana ou para viajar, reclama de não ter alguém para chamar de seu.
A gente reclama dos dias da semana, semana longa cansa. Mas quando chega o domingo, reclama da falta de boa programação na TV, reclama da preguiça que dá e de ser domingo, porque depois a semana recomeça.
A gente reclama de não escrever bem, errar vírgulas cansa. Mas dorme quando pega um livro para ler e reclama da falta de tempo, quando tempo mesmo é a gente quem faz.
A gente reclama de ser esquecido, não ser lembrado cansa. Mas nem sequer estica o braço para pegar o telefone e ligar para aquele amigo, que embora não tenha muitas novidades para contar sempre lembra da gente. A gente reclama quando os amigos ligam demais, se preocupam de mais. Mas se eles se calam a gente reclama.
A gente reclama do próprio corpo, não estar em forma cansa. Mas depois de duas semanas na academia a gente cansa, reclama da dor nas pernas, reclama da dor nos braços, ignora os resultados. A gente reclama do corpo, mas nunca escolhe a fruta, sempre escolhe o doce, aquele mais calórico.
A gente reclama da política, corrupção cansa. Mas nem sequer lembramos em quem votamos e quais promessas foram feitas. A gente reclama de político palhaço, quando a palhaçada fazemos ao não saber quais são os três poderes da República.
A gente reclama de violência contra mulher, abandono infantil e pobreza, descaso cansa. Mas nos acomodamos confortavelmente no sofá ou na cadeira atrás do computador enquanto reclamamos sem nos vincular pessoalmente a nenhuma causa social.
É… Viver cansa!
De tinta!
Escrever é sangrar
Permitir-se escorrer pela tinta da caneta preta
Arriscar-se a ganhar o papel branco
Explorar suas possibilidades.
Escrever é procurar-se
Sem intenção de fim
Porque a beleza está na tinta que corre
Segura, autônoma
E pinta o papel como quer
Borra
E não se sacia até que chegue o fim da página
Molhada!






